17/02/2009
Isso
aconteceu
Domingo de Páscoa 1959
Fazenda Nossa Senhora da Assunção
No Domingo de Páscoa de 1959, um grupo de seminaristas,
acompanhado por Pe.Messias, visitava a Fazenda, a convite da
proprietária, D. Telma, benfeitora do seminário.
A recepção foi calorosa e a cada um, Telma abraçava com
carinho de mãe, sorriso aberto e voz meiga e entregava um
presente:
- Isto não é Deus, mas é Ele que me faz proporcionar isto a
vocês.
Telma sabia que as crianças eram de famílias pobres e que nas
casas de muitos deles não havia festas ou presentes. Sabia também
que a maioria destas crianças tinha suas famílias longe dali.
Com efeito, as crianças haviam deixado suas famílias, suas
casas, seus amigos, a fim de seguir a caminhada sacerdotal,
estudar e só iriam vê-los no final do ano, por ocasião das férias.
Sabia que todos tinham saudades dos pais.
Sabia que saudade dói!
Mas neste dia, fazia com que esquecessem tudo isto, substituindo
as saudades por carinho, amor, festa, lindas palavras, o abraço,
e a fazenda... Linda fazenda!
Telma era alegre, e isto demonstrava em cada ato, em cada gesto.
Mostrava tudo: as “casas” dos animais, os animais, os
riachos, as cachoeiras, as lagoas, o pomar...
- Só não podem quebrar as árvores, mas colham frutos à
vontade!
A fazenda era uma delícia: para os olhos, para o paladar, para
o coração!
- Para a alma: Aqui nos sentimos leves, arrebatados por Deus –
disse o Padre.
E era verdade! E Telma sorria feliz!
- Sinto-me rodeada de filhos! Vocês são meus filhos!
Às quinze horas, o Padre retirou-se um pouco para rezar o Breviário.
Depois sentou-se ao piano e pôs-se a executar lindas canções,
e aos poucos, todos estavam ao redor dele, que parecia dominar o
piano! Conhecia “todas” as músicas e as tocava com graça,
destreza e maestria, acompanhado pelo coro dos meninos. No seminário,
o Padre Messias era o Regente do coral, muito apreciado e
aplaudido pelo povo. Agora o “coral” cantava em lugar
diferente, para um público diferente e menor: Para Telma!
- Vocês me derrubam, meninos! Vocês me trazem o Céu!
Para Telma, todos eram meninos, até mesmo o Padre. Pois ela o
conheceu quando ainda menino e seminarista.
- Um menino de vinte e seis anos: Um Padre, agora! Louvado seja
Deus!
- E a Senhora, quantos anos tem?
- Ah! Já vejo a noite! Tenho 79 anos. Já sou a vovó de vocês!
- E o piano? A senhora toca piano? Não é seu?
- É meu, sim, mas há muito tempo que não o toco. Nem sei mais
tocar... Não consigo mais!
O Padre fez sinal para não falar mais sobre isto e continuou a
executar lindas músicas.
- A Senhora poderia tocar para nós. Toca alguma coisa para nós
– falou um desavisado - e foi acompanhado por outros, que não
haviam entendido o sinal do Padre.
A mulher se esquivava...
- Padre, deixa ela tocar. Toca, toca, toca...
Telma, parecendo fazer um esforço sobre humano, tocou com seus
dedos a nota FA. Parou! Agora o soluço, o pranto tomou o lugar
da música... E tomaram conta dos corações de todos...
Alguns minutos se passaram, e todos se retiraram do local.
Telma, refeita, conduziu todos ao alto de um elevado, a
quinhentos metros da casa;
- Quero mostrar a Capela de Nossa Senhora da Assunção!
Era uma construção pequena, de madeira, com bancos para trinta
pessoas, muito bem conservada e limpa: toda branca, por dentro e
por fora, e com vistas e pisos em azul celeste, produzindo um
ambiente alegre, que transmitia amor e paz! O altar, com toalhas
em linho puro, era ladeado por vários vasos com flores
coloridas, e rosas... Muitas rosas.
- Uma Capela tratada com amor!
- Meu marido Libânio quem a construiu. Ele era muito devoto da
“Assunta” e a construiu ainda quando solteiro, para que aqui
pudéssemos casar! A imagem, ele trouxe da Itália, e tudo, tudo
aqui, ele arranjou para que Nossa Senhora ficasse bem alegre e
à vontade!
E realmente a Capelinha era muito linda e “cheirava” um
cheirinho gostoso de paz!
- E aqui casamos! Quando eu entrava na Capela, o Libânio tocou
o “Mais Formosa que uma Estrela”, no piano que ele mesmo me
havia presenteado. Eu não sabia que ele tocava piano: aquela
foi a primeira vez que o vi tocar! Depois, tocamos muitas vezes
e ele gostava de me acompanhar, e o “Mais Formosa” era o
nosso canto preferido, o nosso “hino” de amor!
Telma ficou em silêncio por alguns instantes: parecia
em êxtase... Parecia
ver alguma coisa.
- Só a “Assunta”, para me confortar!
- A Senhora vê a Maria?
A mulher corou em sua face e a seguir, sorrindo, respondeu:
- Ela é que me vê!
Depois voltamos para casa, respeitando o seu silêncio.
- E onde está o Libânio?
- No Céu!
- E os filhos? A Senhora não tem filhos?
Padre Messias pedia ao rapaz para que calasse a boca, mas a
mulher não estava aborrecida e sentou-se no sofá, ao lado do
piano, já em casa.
- Era este o piano da Capela?
- É este! Na verdade eu o guardo como uma verdadeira relíquia
e cuido dele como se fosse cuidar de meu esposo e filhos. Estes
eram dois: um menino e uma menina e já tinham dezessete e
dezoito anos quando tudo aconteceu...
- E o que aconteceu?
- A febre! Eu fui levada à Curitiba e não tinha chance de vida
e fiquei muito tempo no hospital, mas me recuperei. Trouxeram-me
de volta à casa, mas não trouxeram os meus queridos!
Telma chorava convulsivamente!
Padre Messias tentava acalma-la e pediu para que todos saíssem
da sala. Mas a boa senhora continuou:
- Junto de meu esposo e minhas crianças, foram também os meus
pais... Fiquei sozinha aqui! Nunca indaguei de Deus o porquê de
tudo, pois Ele sempre sabe fazer o melhor, mas só Ele, sabe o
que sofri...
Quase sem voz e entre soluços, continuava a falar:
- E o piano: eu não consegui mais olhar para ele... E ele não
me ouviu mais cantar e nem sentir mais o toque de minhas mãos!
Nunca mais! Eu sei que meus queridos estão no Céu, porque a
“Assunta” me diz isto muitas vezes, mas as saudades são
tantas! E agora, sinto também saudades do Céu!
- Padre Messias: e se a gente levasse o piano para a Capelinha e
o senhor celebrasse uma Santa Missa lá: Será que a
“Assunta” iria gostar?
Telma voltou a chorar, mas agora chorava de emoção...
-“Assunta” me pediu muitas vezes para que eu tocasse lá!
- Vamos – disse o Padre – Esta é a hora do milagre!
O piano foi transportado no Jeep, e em pouco tempo a Capela, o
altar, tudo estava pronto!
- Ângelus Domini nuntiavit Maria – o Padre começou, pois
eram 18 horas, hora da Ave Maria, e todos, de joelhos rezaram
este lindo canto de louvor a Maria. Ao terminar a Oração,
Telma completamente em êxtase, levantou-se, e muito devagar se
dirigiu ao piano e, levando suas mãos às teclas, executou com
suavidade, qual música do Céu, o seu “hino de amor”:
- Mais Formosa que uma estrela, ostentando seu
clarão.
Brilhas Virgem sempre Bela, lá na célica
mansão...
Agora, já os alunos, o Padre, o Céu cantavam junto!
- Virgem sempre Imaculada, desde a Tua Conceição,
Só Tu foste preservada, da geral
condenação...
Da geral condenação!
Todos choravam! Literalmente: todos choravam!
- O Céu também está chorando – disse o rapaz! Olhem, o Céu
também chora!
Ali, naquele momento, o Céu havia descido à terra!
- Eu não toquei sozinha: Libânio me acompanhou!
A Santa Missa foi realmente festiva, embora em clima de profundo
respeito, como verdadeiramente as Santas Missas devem ser, e no
rito Tridentino.
Os corações ardiam de alegria e amor: Eram corações em
festa! Era festa dos corações!
- Quanta alegria! Quantas emoções em só dia!
Telma tocou a Missa inteira: já sabia novamente tocar!
Ao termino da Santa Missa, o rapaz chamou a atenção para um
canto do piano:
- Olhem lá, o que a “Assunta” me mostrou: O que foi escrito
durante a Santa Missa:
Todos olharam o desenho e a frase gravados no espelho do piano,
bem perto do coração de quem o toca:
Um coração trespassado por uma flecha, e os dizeres:
“De Libânio para Telma, com
muito amor!”
“Domingo de Páscoa de 1959!”
E eram letras do Céu! Amém!
Há poucos anos atrás, passei por aquela localidade e não pude
deixar de chorar. A Capela ainda está lá: linda como antes,
mas não pude entrar para escutar a Música do Céu! Amém!
Cláudio
OBS: Para entender melhor> Este fato deve ter acontecido nos
tempos em que o Cláudio estava no Seminário de Castro no Paraná,
entre os padres de Sion.
Fonte: Recados do
Aarão

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