05/02/2009
Coração
criança
Porto Belo, SC, 03 de Novembro de 2008
CORAÇÃO CRIANÇA
Conheci o Zeca: brincávamos juntos quando crianças. Apesar de
ele já ser “grande” e ter seis anos mais que eu,
brincava com as crianças, porque seu coração era de criança!
E sempre foi assim: tinha dez irmãos e nenhum brincava com ele,
pois “eram adultos e o Zeca um retardado”!
Sua mãe era uma santa e procurava fazer sempre o melhor para
seus filhos, e a todos tratava com igualdade amando-os de forma
bondosa e santa.
Seu pai, no entanto, era enérgico, duro e até mau para com a
esposa e seus filhos...
- Mau! Teu pai é mau!
- Não! Meu pai não é mau – dizia o Zeca – ele apenas
precisa ser forte, porque trabalha muito.
O pai exigia muito dos filhos que, à sua ordem, trabalhavam
desde a madrugada nos seus armazéns e perseguia aos que não
dessem conta das tarefas: pesar e carregar feijão em sacas de
60 quilos, escolher e empacotar cebola ou batata, varrer os
armazéns, enfim, havia trabalho durante todo o dia e em todos
os dias...
Muitas vezes presenciei a perseguição: havia um “pasto”
nos arredores da casa, e ali muita madeira gradeada para a
venda, servia de esconderijo para quem quisesse escapar da
surra.
- Bem feito – dizia o Zeca – porque não trabalham direito
como o pai quer?
O Zeca não se escondia, e acabava recebendo as reprimendas
destinadas a seus irmãos: surra com cintas, tapas e até socos
e pontapés. Nunca denunciou os irmãos, e por isso era
castigado.
Muitas vezes presenciei o pai procurando por seus filhos, com o
revolver nas mãos!
- Teus filhos não são animais – dizia Amélia, que era sua
irmã e vizinha- mas ele a repreendia, porque ela não tinha
nada a ver com isto e por isso não devia se intrometer...
Todos gostavam da Tia Amélia, e muitas vezes buscavam com ela a
proteção e a segurança. A mãe não podia protegê-los pois
também levaria surras...
Zeca realmente era diferente de seus irmãos: amigo de todos,
conselheiro, humilde, orante. Tinha muitos amigos, mas em casa
era considerado anormal, justamente por ser avesso a erros e
pecados!
Combatia o pecado e falava sobre Deus!
Os irmãos estudaram e aos poucos foram sumindo de casa, e
alguns ainda jovens também abandonaram a família “porque não
agüentavam mais a ira do pai”.
Zeca ficou em casa e encontrava abrigo em sua mãe, mas era
marginalizado pelo pai ganancioso, prepotente, mesquinho e
arrogante e que achava que seu filho deveria ter a sua
“cara”!
O rapaz ficou adulto e amou!
Para ele, a moça era muito linda e de boa índole, mas o pai a
taxou de feia, ridícula e vagabunda!
- Mas ela é uma moça direita...
- Se ainda te encontrares com ela, eu te deserdarei! (Já havia
“deserdado” os outros filhos)
O rapaz não se amedrontou, e acabou casando-se com a moça,
acendendo ainda mais a ira do pai, que não participou da cerimônia
de casamento.
Amélia interferiu e juntamente com a mãe do rapaz, conseguiu
com o tempo, convencer o pai que permitisse ao filho, morar numa
pequena casa vazia. O pai cedeu, mas com a condição de que o
filho mantivesse limpa toda a propriedade do pai: as casas, os
armazéns, o terreno, as lojas, enfim... E o filho trabalhava de
sol a sol...
Nunca estudou! Seu rendimento vinha de alimentos das lojas do
pai, e do pequeno salário de sua esposa que trabalhava na fábrica.
Um filho de milionário, vivendo na maior pobreza e humilhação,
era certamente motivo de risos e zombaria por parte dos que
viviam nos arredores.
Zeca, apesar de ser motivo de risos, não se queixava e tudo
oferecia em reparação dos pecados: dos outros e de seus próprios!
- De fato – dizia – Deus é bom! Muito bom e é com eles que
vamos morar! Então porque reclamar das coisas daqui?
E era perseguido pelo pai e pelos irmãos, embora estivessem
longe...
- Mas eu sei que um dia Deus vai morar com eles também, porque
são filhos Dele!
Zeca teve filhos e filhas. Estes seguiram os ensinamentos da mãe,
uma mulher pouco formada na fé, e assim cresceram mais longe de
Deus.
O curioso é que não se via tristeza nos olhos do Zeca: para
todos sorria, e para com todos tinha palavras bonitas...
Simples, mas bonitas!
Não pode estudar e mal sabia escrever o seu nome: sabia
escrever o nome porque o decorou, mas não sabia ler o próprio
nome, pois não conhecia as letras!
- Pena que meus irmãos não lêem pra Deus! Como eu gostaria de
ler pra Deus!
Os irmãos seguiram rumos diferentes: empresários,
comerciantes, fazendeiros e se distanciaram entre si.
Visitavam-se algumas vezes, mas o Zeca foi esquecido! Seu pai, a
certa altura da vida, vendeu os negócios, a casa, as terras e
foi residir em outra cidade. O filho ficou sem emprego!
- Mas eu sei “barrer”...
Arranjou serviço como gari e varreu as ruas de sua cidade!
Lembro-me de que se orgulhava disso: em uma festa de casamento
de um parente, foi convidado juntamente com alguns de seus irmãos.
Estes se “gabavam” de seus feitos, de como haviam ficado
ricos, de como viviam, de como haviam conseguido escapar do
pai...
O Zeca também se “gabava”:
- Eu “barro” as ruas e minha cidade fica mais limpa e
bonita, mas o que mais me deixa feliz é quando eu vejo um pedaço
de cigarro no chão, daqueles que meus irmãos fumam! É como se
eu tocasse neles naquele momento! Mata as saudades, sabem? E
coloco aqueles tocos no lugar, com tanto carinho, como se eu
estivesse embalando os meus irmãos! Por isso gosto de “barrer”!
Ele era assim: do jeito do mato, mas com o coração mais rico
do mundo!
Houve a greve dos funcionários públicos e todos cruzaram os
braços. Todos, menos o Zeca que trouxe a sua vassoura. Mas não
o permitiram trabalhar.
- Mas está tudo sujo! O que os outros vão dizer de nossa
cidade?
Mas não adiantaram os seus argumentos: não podia varrer e
pronto!
Tomou sua vassoura, subiu as escadarias da Igreja Matriz: varreu
a nave, varreu o páteo, os jardins, as escadas...
- Eu sei que meus amigos não gostam do que estou fazendo, mas
sei que Deus gosta!
A greve terminou alguns minutos depois. Deus certamente ouviu os
apelos do Zeca, pois:
- Faço isto porque amo os meus amigos. Eu sei que as pessoas
que vem nesta Igreja hoje, vão achá-la bem limpa e bonita e vão
saber que em minha cidade os trabalhadores da Prefeitura gostam
de receber bem os seus visitantes!
De fato, ele honrava seu uniforme e seus amigos!
Coração simples! Coração de criança! Coração rico de amor
para com todos.
Um dia, sua esposa saiu de casa e não voltou mais. “Estava
cansada da vida: a casa cheia de filhos e netos lhe dava muito
trabalho e não agüentava mais!”
O Zeca a amava muito e a cada dia aguardava sua volta com
ansiedade: enfeitava o quarto, arranjava bem a cama, limpava
toda a casa... Mas ela não voltou mais!
Um dia veio a notícia:
- Tua esposa foi encontrada morta, na casa onde vivia com um
homem. Mas estava sozinha e já morreu há uns três dias, e
nesta situação, deverá ser levada diretamente ao cemitério!
- Mas ela é minha mulher. Mãe de meus filhos e sei que ela
gostaria de visitar sua casa pela última vez e eu também
ficaria muito feliz com a visita dela! Ela é filhinha de Deus e
merece ser bem tratada!
Houve então, um pequeno momento de oração em casa, entre os
filhos e netos, com o caixão hermeticamente fechado tendo em
vista o estado de putrefação do corpo! (1)
Alguns anos depois, já cansado, doente, se entregou à cama e
embora gravemente enfermo, ninguém o visitava...
Fui vê-lo um dia e esta foi a última vez. Era lastimável o
seu estado: magro, pálido, sem forças, estirado à cama pobre,
mal podia balbuciar. Consegui escutar suas últimas palavras:
- Cláudio: viva o amor! Amém?
Confesso que saí chorando daquele local!
E hoje, diante de seu túmulo, aquelas palavras me são
repetidas:
- Cláudio! Viva o amor! Só assim o coração da gente fica sem
lugar para a maldade, e o coração da gente fica parecido com o
Coração de Deus! Amém!
Querido Zeca: reza por mim. Amém!
Cláudio
(1) O ato de Zéca e dos filhos, de trazer a mãe para
dentro de casa, mesmo naquele estado de putrefação, provando
seu amor e seu PERDÃO, deu a esta mãe a graça da contrição
final. Foi a chave da salvação dela.
Quanto a história acima, Arnaldo pergunta: Pode um pai assim se
salvar? Haverá salvação para irmãos deste tipo, que vivem
ricos enquanto seu irmão morreu na miséria? Deus tem seus
caminhos, vejam o que aconteceu antes disso:
Em 1997 Cláudio relata. Era o começo das visões das almas do
Purgatório:
No mesmo mês, quando eu estava no sótão de minha casa,
arrumando alguma coisa, senti passos, ou como se fossem passos e
alguma coisa se mostrava por trás de mim: - Tio Indalício-
murmurei - O senhor também?
Mas, ele apenas chorava. Tio Indalício havia sido meu padrinho
de batismo e era o irmão mais velho de minha mãe. Nunca havia
lembrado dele em minhas orações, afinal: - Para que rezar por
alguém que está no inferno?
_ Não julgues ninguém – alguém me açoitou nos ouvidos.
Cuidado!
_ O que o senhor quer, tio? Estava amarrado em
uma espécie de tronco, completamente nu e sem nenhum cabelo.
Nada me respondeu! (2)
Fiquei chocado, completamente trêmulo .
_ Mais um querendo orações, e este é bravo... O eu queria
ele? Ou melhor, o que deveria fazer eu por ele?
Uma voz me sussurrou: - Rezem muito por ele, vocês três
(Norma, Palmira e eu), pois ainda pode se salvar, embora com
muita dificuldade.
Tive a impressão de que conhecia esta voz, e a noite, quando os
três rezávamos, vi junto ao nosso altarzinho, Dona Amélia,
minha mãe sorrindo e me acenando: - Reze pelo teu padrinho
Indalício tá?
A emoção não me deixou ver mais nada... Mas uma certeza eu
tive: - Minha mãe não precisava de oração: Já era santa!
(2) Ele estava assim nesta posição, com frio e
fome brutais, já havia 19 anos. Estava com as mãos amarradas
nas costas, porque em vida queria tudo para si, e agora não
podia ter nada. Passava frio e muita fome, porque nos tempos de
muita inflação ele estocava trigo e açúcar pra fazer subir o
preço e vender caro. Muitos sofreram por causa da ganância
dele.
Cláudio continua:
Minha mãe, Dona Amélia começou a aparecer-me freqüentemente.
Quase sempre pedia pelo seu irmão Indalício: - Ele ainda pode
salvar-se se tivermos paciência e rezarmos bastante.
_ E a senhora? E o pai?
_ Estamos bem. Com Nossa Senhora. É muito bom aqui.
Eu ficava sem ação. Parecia-me esvair, Muitas vezes não
encontrava forças, mas continuava lutando, e rezando...
As quinze orações sempre fazíamos unidos, pelas santas almas.
Deus e Nossa Senhora deveriam saber por quais almas se
destinavam, mas pelo menos, duas já sabíamos: Tio Indalício e
seu Nelson.
Freqüentemente, nas orações, uma voz rouca (em meio a tantas,
horríveis e assustadoras) me sussurrava aos ouvidos:
- Canta o canto da Amélia...
A princípio não entendia bem. Muitas vozes estranhas ao mesmo
tempo. Algumas berrando, outras suaves, roucas ou lancinantes,
algumas infernais sem dúvida. Mas, aos poucos fui
diferenciando, conseguindo discerni-las após é claro, muitas e
muitas preces ao Espírito Santo. Esta que me pedia para cantar
o canto da Amélia era a voz do meu padrinho e tio. Mas... Qual
o canto da Amélia?
E em minha frente, junto ao Altar, minha mãe, como se fosse
maestro, acenando as mãos iniciou um canto:
- “Que voz direi... Virgem Maria! Mãe Terna e Pia... Voz
quero Amar!...”
A emoção não me permitia rezar...
Norma, a meu lado, percebia minha angustia e seguia firme nas
orações...
Compreendi! Durante a vida, meu tio não participava de nada:
Igreja, orações, ou qualquer outro ato de piedade, mas gostava
de acompanhar minha mãe, quando cantava cânticos Sacros.
Talvez, a única coisa que sabia: Cantar alguns cantos ensinados
por Dona Amélia.
E, de vez em quando, o ritmo de nossa oração era quebrado,
interrompido, para cantarmos a pedido dele: - Um canto de Dona
Amélia...: - Que voz direi..., Com minha mãe estarei..., Deus
Eterno a Vós Louvor..., Minha mãe cantava conosco, com voz de
anjos...(3)
Eu as vezes parava... Chorava...
(3) Na semana final de junho de 1998, finalmente a Mãezinha
levou Indalício ao Céu. Apesar de ser tão mau, ele teve a
chance da contrição final, porque em vida apesar de não
seguir a religião e tivesse sido um comerciante ganancioso,
gostava dos cantos de Igreja que sua irmã cantava. E não resta
duvida de que o comportamento do filho Zeca, seu amor, sua
humildade e seu zelo, contribuíram grandemente para a salvação
do pai.
Um dos irmãos de Zeca entra num capítulo de história que está
no site em <histórias> sob o título: quebra
de maldição! Isso ainda está em andamento...
Por isso não termos dúvidas: As orações da mãe, o
perdão do filho Zeca, são armas poderosas que acabarão
por salvar toda a família.
Outro capítulo da mesma saga, conta o fato de uma promessa que
Indalício fez e não cumpriu, e tem a ver com a propria vida do
Cláudio. Ele mesmo foi pagar em Iguape uma promessa feita 60
anos antes e não cumprida... Ou seja: Deus aceitou deixar o Cláudio
com vida, por uma promessa da Mãe Amélia, que seu tiu
Indalicio prometera cumprir. Levar o afilhado em Iguape.
Fonte: Recados do
Aarão

|