07/10/2008
Fragmentos
IX
Porto Belo, SC, 05 de Outubro
de 2008
61 Fragmentos – IX – Alfonso
... O caminhante me contava assim, diante de algumas perguntas
que eu lhe fazia:
- Havia aquele Padre. E aquele Padre falava
mais alto. Falava muito alto, apesar de sua voz ser apenas um
sussurro! Ela vibrava nos meus ouvidos, parecendo querer
arrebenta-los; berrava no meu coração e este se
descompassava; atingia fortemente a minha cabeça, e ela
girava.
Mas a sua voz, segundo TODOS, era apenas um
sussurro!
Eu me perturbava! Apenas me perturbava!
Eu não queria ouvir o que suas palavras me
diziam. Irritava-me vê-lo, e por isso fugia de suas pegadas,
de sua sombra; fugia de quem quer que fosse, que tivesse tido
contato com ele, ou que o tivera escutado!
- Como o diabo foge da Cruz?
- Esta expressão é dos homens! Na verdade, o
diabo não foge da Cruz!O diabo foge das pessoas que VIVEM a
Cruz, que exaltam a Cruz! O diabo foge de Deus! E de quem está
com Deus! Mas eu fugia do Padre! Medo? Talvez! Mas, de que?
Toda a polícia do país me perseguia: ora me
prendia, ora me soltava; ora me prendia, ora me soltava...
Constantemente me prendiam e me liberavam... Grandes bandidos
me prendiam, me soltavam... E isso passou a fazer parte da
minha vida, até porque estes atos, sempre rendiam grandes
somas a alguém... De fato, porque tudo eu podia comprar:
brinquedos, alimento, armas, mulheres, homens... Podia e
comprava consciências! Quanta consciência podre eu comprava:
conheci muitas consciências prostitutas, que por bagatelas,
vendiam e revendiam a própria alma! Conheci grandes covardes,
que usavam de sua tagarelice atrás de portas e cortinas, mas
à minha frente se derretiam em bajulações! Eu os achava
“nojentos”, mas os aceitava, pois para a minha historia,
interessavam muitos adeptos e de preferência, os desviados e
imundos de espírito!
E quantos me seguiam!
E havia as mães: a maior parte delas,
medrosas, e porque seus filhos eram bem pagos, se calavam. Mães
assim – aquele padre dizia – Mães assim, nem deveriam ter
nascido: são a desgraça do mundo!
Mas muitas mães me enfrentavam, e o destino
delas e de seus filhos, quase sempre era o mesmo: a terra úmida
e fria!
Meu mundo era assim: fama, fortuna, poder, e
nada me fazia parar! Eu era feliz assim, e tinha certeza de
que, todos ao meu redor também se sentiam felizes e seguros.
- Eles têm medo de você!
Cada palavra daquele Padre me era uma
chicotada: me feria, me humilhava.
- Padre maldito: um dia te colocarei onde
mereces!
- A terra úmida e fria?
- Você estará lá! E não poderá escapar de
minhas próprias mãos!
Mas quando me atirava a ele, me sentia preso,
amarrado àquele olhar... E o mundo girava à minha volta e
meu coração parecia sair à boca! Eu o soltava!
- Mas que inferno! Este padre é mais forte que
eu? Mais forte que tudo?
-Você tem medo dele!
Isto foi a minha consciência que falou!
Mas como eu poderia ter medo de um mísero
mortal, frágil, raquítico, que quase andar não podia?
Mas eu fugia dele! Alguma coisa me dizia que
minha história não iria acabar bem e que era então necessário,
elimina-lo. E é claro: não poderia ser por minhas mãos, já
que por muitas vezes havia tentado e não havia obtido êxito!
Os homens armaram a emboscada bem no interior
da Igreja. Na verdade, onde ele gostava sempre de estar:
diante de seu Deus, no meio do Altar.
Eram seis os homens: deveriam surra-lo, amordaça-lo
e leva-lo para o centro da praça onde serviria de zombaria
aos que por ali passassem. Os homens o abordaram, e, em alguns
minutos, um a um ajoelhou-se diante do Padre, no cubículo a
que chamavam confessionário!
E me trouxeram o recado:
- O Padre disse que logo ele irá para o Céu,
mas que não poderá ir sem você, já que esta é a Missão
que Deus a ele outorgou!
Seis projeteis, rápidos e certeiros, foram a
resposta aos homens.
E procurei pessoalmente aquele padre que agora
eu admirava, por sua loucura, sua determinação, sua
coragem... Mas era necessário mata-lo, para acabar com
o meu ódio.
Aos pés do altar, em silencio, parecia me
aguardar. Permanecia imóvel! Aproximei-me, na certeza de
acabar com sua história; depois, certo de que eu deveria
deixar para mais tarde; em seguida, certo de que...
Certo de que?
Certo de que não poderia atingi-lo!
E me vi a seu lado, de joelhos, olhando o mesmo
foco!
Ele não pareceu surpreso!
- Sabe o que ELE (Jesus) diz? Está feliz e
honrado com tua visita!
Eu não podia acreditar no que acontecia!
-Você me paga – eu disse – e saí correndo
porta afora... Mas que diabo de padre é esse? Não aceita
extorsão, não aceita ajuda, não tem sua alma à venda;
enfrenta-me com palavras simples que me desarmam
completamente. Tenho realmente medo dele... Mas medo do que
nele realmente? Não poderia ser dele ou nele, pois
humanamente não passava de um velho raquítico e quase
acabado...
- Mas é Deus ali!
Novamente foi minha consciência que me falou,
e agora já não pude fazê-la calar-se!
Na grande emboscada final, o Padre sabia onde
eu estava. A policia me encontrou e eu amaldiçoei aquele que
para mim, já era um maldito e agora se juntava aos nojentos
covardes e traidores!
Projeteis perfuram meu corpo todo, e, aos
poucos, fui morrendo e amaldiçoando... Os olhos foram
perdendo as imagens, e, pela primeira vez desejei ver o tal
Padre!
E ali, a meu lado, também estirado ao chão
ele estava, já quase sem vida!
- Você não, Padre. Você não poderia estar aí
- eu gritei.
- Mas eu estou! Minha Missão é meio parecida
com a tua: você resgata valores materiais e eu resgato almas
para Deus. E, ao que tudo indica ambas as missões levam à
morte!
- Você não me delatou?
- Como poderia? Você é meu amigo!
- E porque te mataram?
- Por acharem que eu estava te acobertando em
segredo de confissão.
- Que confissão? Isto nunca existiu em minha
vida! Nunca existiu...
E, alguns segundos depois...
- Padre: Será que poderia existir agora?
E ele, o Grande Padre, o maior de todos, me
disse:
- Claro! E com isto você me dará também o Céu!
Fiquei sabendo depois: Padre Stank John, foi
recebido diretamente no Céu, pelas autoridades de lá. Eu
permaneci muito tempo na Turris Ebúrnea! Aquele Padre não
permitiu aos demônios de me levarem para a eternidade dos
infernos!
No mundo são poucos estes padre, mas estes
poucos fazem a diferença no Céu, pois aprontam histórias de
verdadeiro amor e heroísmo. E isto, sim, interessa a Deus!
Que Deus seja sempre louvado! Amém!
Alfhonsus
por ainda não o nome
verdadeiro...